29 de novembro de 2013

Uso de agrotóxicos eleva o risco à saúde de trabalhadores rurais

Comércio irregular de agrotóxicos pela internet, em parte alimentado por produtos falsificados,
sem registro e vendidos por empresas fantasmas, eleva o risco à saúde de trabalhadores rurais que têm contato com produtos químicos. Com predomínio de minifúndios voltados à produção de uvas e hortigranjeiros, Bento Gonçalves é o município gaúcho com o maior número de registros de intoxicação por agrotóxicos no Sistema de Informação de Agravos de Notificação do governo federal.

Além do uso intensivo de defensivos na fruticultura, superior às lavouras de soja e milho, o elevado número de notificações é resultado da persistência da vigilância sanitária em confirmar casos suspeitos. De 2007 à metade deste ano, Bento Gonçalves teve 94 — quase um quinto — dos 458 casos do Estado. Mas o tamanho do problema é maior do que indicam os números. Estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostra que, para cada registro de intoxicação por agrotóxicos, outros 50 casos deixaram de ser verificados.


Falta de regulamentação facilita comércio irregular de agrotóxicos

Hoje trabalhando em uma empresa de transportes, o ex-agricultor Leodir de Paris, 55 anos, teve dois acidentes enquanto aplicava fungicidas em parreirais, nos últimos cinco anos. No primeiro, sofreu queimaduras em partes do rosto que estavam desprotegidas e, no segundo, as pernas foram atingidas.

— Nesta segunda vez, demorei 90 dias para ficar curado — lembra De Paris que diz ter usado equipamentos de proteção individual (EPIs) nas duas oportunidades. Para o ex-agricultor, a principal causa das intoxicações na região é a utilização desmedida dos produtos:
— O pessoal usa demais e de forma desordenada, sem consultar profissional habilitado, como agrônomos. Vai muito pelo que o vendedor — diz.

A exposição aos agrotóxicos desde a infância também cobrou um preço ao agricultor Jorge Salton, 59 anos, que há 15 decidiu abandonar a produção convencional e, por questão de saúde, dedicar-se aos orgânicos. Antes de tomar a decisão, conviveu por quatro anos com alergias, dores de cabeça e mal-estar sempre que aplicava químicos. A necessidade foi reforçada quando o filho Joemir, à época com 15 anos e hoje com 31, repetiu os sintomas.

— Quando entrava no parreiral onde o produto havia sido aplicado, já começava a me sentir mal. Eu usava proteção mas não adiantava — relata.
Para técnicos da Embrapa Uva e Vinho, poucos agricultores usam EPIs de forma adequada por falta de orientação e desconforto. Para completar, aplicam um volume de químicos superior ao necessário com medo de quebra na produção.

— Além da perda financeira pelo excesso nas aplicações, aumenta o risco de intoxicação — avalia o supervisor de campos experimentais da Embrapa de Bento Gonçalves, Roque Antônio Zilio.
Uma das principais especialistas no tema no Estado, a médica Neice Faria, coordenadora da vigilância de saúde do trabalhador de Bento Gonçalves e professora de medicina do trabalho da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), lembra que, além dos episódios agudos, a exposição aos agrotóxicos é relacionada a males crônicos que podem se manifestar ao longo dos anos. São registrados casos de câncer, desequilíbrio hormonal, problemas respiratórios e de saúde mental, como depressão.

— Há pesquisas mostrando que os agrotóxicos fazem parte da cadeia causal de suicídios — observa Neice.
A cada quatro dias, cinco atendimentos
Embora não existam estatísticas precisas sobre intoxicações agudas, os números de atendimentos por telefone no Centro de Informação Toxicológica (CIT) do Estado mostram que o quadro é mais grave do que indica o Sistema de Informação de Agravos de Notificação. Considerando apenas acidentes e uso indevido, sem contabilizar tentativas de suicídio, foram 2.295 chamados ao CIT nos últimos cinco anos. Embora os acidentes se concentrem nos meses mais quentes, é como se, a cada quatro dias, cinco casos de intoxicação por defensivos fossem atendidos. Em dois terços dos casos, as ligações partem de profissionais como médicos e enfermeiros.
Para Virgínia Dapper, médica do trabalho e toxicologista do Centro Estadual de Vigilância em Saúde, um dos entraves para dados mais precisos é a falta de capacitação dos profissionais para diagnosticar as intoxicações agudas e as doenças crônicas causadas por agrotóxicos.

(Fonte: Zero Hora – 23/11/2013)
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